Nos primeiros capítulos do seu livro..
Francisco J. C. Karam nos lembra de algo muito importante que muitas vezes esquecemos ao discutir a questão da ética no jornalismo. A ética jornalística não é uma escolha. É um dado concreto intimamente ligado a formação estrutural do campo da comunicação e do jornalismo no Brasil. Para que exista um jornalismo ético é preciso, em primeiro lugar, que “..as diversas concepções, versões, culturas e comportamentos estejam presentes”(KARAM, 2014, p.18). A linguagem, bem como lembra Bakhtin, é formada na práxis. A ética jornalística como lembra Karam e concorda Eugênio Bucci também é formada na práxis. Se a práxis do campo comunicacional no Brasil não for democrática, se continuar concentrada nas mãos de poucas pessoas, não haverá diversidade de vozes e consequentemente não haverá um jornalismo ético em nosso país. Não é questão de formato de texto, de escolha do jornalista ou aperfeiçoamento de um código moral universal, esse é um problema estrutural.
A luta, portanto, pela ética no jornalismo deve ser, primordialmente, uma luta pela democratização dos meios de comunicação.
"..o direito social a informação só tem sentido se for conectado a conceitos e valores, como liberdade. O caminho para ele não passa pela supressão da informação sobre as coisas que se passam no mundo, mas pela revelação diversa e contraditória do movimento humano." (KARAM, 2014, p. 12)
A competição levou ao monopólio
Como lembra Eugênio Bucci, talvez ingenuamente, acreditamos no liberalismo, na ética do mercado, em que a competição poderia prover e suprir essa demanda pela diversidade de vozes no jornalismo, com o passar do tempo, entretanto, constatamos que essa competição apenas levou ao monopólio e o cristalizou.
Se quisermos um jornalismo ético, precisamos de pluralidade de vozes. Precisamos lutar pela democratização dos meios de comunicação no Brasil, por políticas que favoreçam e incentivem a inserção de novos atores no campo da comunicação. Isso inclui não apenas leis menos restritivas e a desburocratização, mas também o incentivo a criação e a manutenção de iniciativas que contestem o monopólio e promovam a diversidade de vozes.
Em seu artigo, ao comparar com Argentina e Venezuela, Gislaine Moreira mostra que as políticas de comunicação comunitária no Brasil são restritivas, limitadas e praticamente impossibilitam a existência de canais comunitários em grande escala, tornando esse tipo de iniciativa uma forma de resistência aguerrida contra todo um sistema de criminalização, precarização e desmonte.
“Ética não é etiqueta” – Eugênio Bucci
Não quero dizer que os jornalistas não devam discutir profundamente suas práticas cotidianas e pensar como podem se tornar mais éticos, isso é importante também, mas apenas tento lembrar que essa não é uma escolha individual, mas que, para a sua realização real, compete uma mudança estrutural e maior, exigindo assim uma ação conjunta da sociedade que vise a transformação da realidade social dos meios de comunicação.
“O problema ético é um problema estrutural e sistêmico” (BUCCI, 2000, P. 35)
A discussão desse artigo discutiu a estrutura geral na qual a comunicação social de interesse público está inserida. É possível, porém, também voltar os olhos para a estrutura interna dos meios de comunicação. Se não há democracia interna, é possível existir ética nos meios? Se as redações são hierarquizadas, a ética fica a cargo do bom e do mau profissional? Do bom ou do mau chefe de redação? ts.. Esse ponto coloquei apenas para dizer que puxando esse fio dá pra ir longe.
Embora muitos autores, como Karam e Bucci apontem em um primeiro momento para essas perspectivas, em seguida parecem esquecer disso e se voltam para a discussão aprofundada dos códigos e condutas. Não que isso não seja importante e necessário, mas a pergunta que fica é, como romper esses limites e pensar também pensar principalmente na transformação estrutural dos meios como forma de conquista e garantia de uma ética na comunicação?
Utopia? Necessária.
BUCCI, Eugênio. Sobre ética e imprensa . São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
KARAM, Francisco José Castilhos. Jornalismo, ética e liberdade . São Paulo: Summus, 2014.
MOREIRA, Gislaine. É legal? A regulação da Comunicação Comunitária na esquerda latino-americana. Intercom – RBCC. São Paulo, v.36, n.1, p. 209-227, jan./jun. 2013.